Opinião

Um investimento ao contrário das prioridades

O Programa de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) foi apresentado como uma oportunidade histórica para corrigir fragilidades estruturais e promover maior coesão territorial. No caso dos Açores, e em particular da Ilha do Pico, o Governo Regional assumiu como prioridade investir em infraestruturas sem financiamento comunitário disponível, com especial incidência na rede viária e nos caminhos agrícolas e florestais. Uma opção que, em teoria, merece concordância, pois responde a necessidades concretas e há muito identificadas.

Na prática, essa estratégia inclui a reabilitação de taludes e vias florestais degradadas, uma intervenção justa, necessária e urgente. Estas infraestruturas são essenciais para a agricultura, para a gestão do território, para a proteção civil e para a mobilidade em zonas mais isoladas. Contudo, é neste mesmo enquadramento que surge uma decisão que contraria a lógica anunciada: a proposta de construção de uma via rápida entre São Roque e a Madalena.

Este projeto, estimado em cerca de 70 milhões de euros, levanta sérias dúvidas quanto à sua pertinência. Num eixo onde as distâncias já são reduzidas (aproximadamente12,5 km entre o Porto de São Roque e o Aeroporto do Pico, e apenas 9,5 km entre o aeroporto e a Madalena) e onde existem boas alternativas rodoviárias, recentemente reforçadas com a Circular da Madalena (8,5 milhões de euros), a necessidade de uma via rápida é, no mínimo, questionável. Trata-se de investir avultados recursos públicos onde a acessibilidade já está garantida, ignorando outras zonas da ilha onde as carências são evidentes.

O contraste torna-se ainda mais evidente quando analisamos a realidade do concelho das Lajes do Pico. Aqui, os residentes enfrentam cerca de 40 km até à Madalena e 38 km até ao aeroporto, com trajetos mais longos, sinuosos e, muitas vezes, perigosos. São estas populações, em grande parte envelhecidas que enfrentam maiores dificuldades de acesso a serviços essenciais.

Mais do que uma questão de distância, trata-se de uma questão de desigualdade. O investimento proposto reforça um modelo de desenvolvimento centrado no norte da ilha, privilegiando a logística e um turismo concentrado, enquanto marginaliza territórios periféricos. No entanto, o sul do Pico, com destaque para as Lajes, é um dos principais motores turísticos da ilha, com reconhecimento internacional na observação de cetáceos e valorização do património baleeiro. Apesar disso, continua dependente de acessos desadequados, que penalizam diretamente visitantes, empresas e trabalhadores.

A situação agrava-se no inverno, quando o eixo Piedade–Lajes–Madalena é frequentemente afetado por condições meteorológicas adversas, quedas de taludes e derrocadas. Não são raras as situações de isolamento, colocando em risco a segurança das populações. Investir neste corredor não é apenas uma opção estratégica é uma obrigação em termos de proteção civil.

Perante estes factos, impõe-se uma reflexão séria: qual é, afinal, a prioridade? Combater o isolamento e promover a coesão, ou reforçar zonas que já dispõem das melhores condições? Se o objetivo do PTRR é transformar e corrigir assimetrias, então a resposta é evidente: o investimento deveria centrar-se no eixo Piedade–Lajes–Madalena, aproximando quem está verdadeiramente distante.

Num território como o Pico, pequeno em dimensão, mas desigual nas oportunidades, governar exige sentido de justiça. E justiça territorial significa, antes de tudo, investir onde a necessidade é maior não onde ela já foi resolvida.